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IA ganha espaço no meio acadêmico, mas uso exige senso crítico e supervisão humana

22 de set.
4 min de leitura

Coordenador acadêmico da FPS destaca como a nova realidade impacta no mundo acadêmico


Foto: Divulgação


A inteligência artificial (IA) deixou de ser uma ferramenta restrita ao universo tecnológico e passou a ocupar espaço cada vez maior nas salas de aula, laboratórios e ambientes de pesquisa. No meio acadêmico, especialmente na formação de profissionais de saúde, a tecnologia pode auxiliar estudantes e professores em diferentes etapas do processo de aprendizagem. O desafio, no entanto, está em encontrar o equilíbrio entre aproveitar os recursos oferecidos pela IA e preservar o pensamento crítico, a autonomia e a responsabilidade humana.


Na Faculdade Pernambucana de Saúde (FPS), a discussão sobre o uso da inteligência artificial já faz parte da preparação dos estudantes e docentes para os desafios da formação em saúde. A instituição mantém iniciativas voltadas ao letramento digital e à utilização crítica e ética da tecnologia. Em 2026, por exemplo, a FPS lançou um curso de Letramento Digital e Inteligência Artificial em Saúde destinado aos discentes.


Para Gilliatt Falbo, coordenador acadêmico da FPS, a inteligência artificial pode ser uma aliada importante no processo de aprendizagem, desde que seja utilizada como ferramenta de apoio — e não como substituta da capacidade de raciocínio do estudante.


“A inteligência artificial pode ajudar o aluno a estudar de diversas formas. Ela pode, por exemplo, auxiliar no planejamento dos seus estudos, identificando artigos científicos sobre o tema, fazer resumos e resenhas dos artigos com os principais aspectos do tema, buscar na literatura questões de avaliação permitindo que o estudante teste seus conhecimentos, identifique lacunas e tenha contato com diferentes possibilidades de abordagem de um determinado assunto. Mas é fundamental que esse processo seja acompanhado pelo raciocínio e pela avaliação crítica do próprio aluno”.


A elaboração de questões, a organização de conteúdos, a produção de resumos, o planejamento de atividades e a busca inicial por referências estão entre as possibilidades de uso acadêmico da tecnologia. Documentos da própria FPS já apontam a utilização da IA no aprimoramento de casos e problemas, questões de múltipla escolha e atividades avaliativas, além do apoio aos estudantes na pesquisa de referências e na elaboração de resumos.


Outro benefício está na possibilidade de personalização do estudo. A partir de uma orientação adequada, ferramentas de IA podem ajudar o estudante a revisar determinado conteúdo, formular perguntas, comparar conceitos e simular situações que estimulem a aprendizagem ativa. Para Falbo, entretanto, a facilidade proporcionada pela tecnologia não pode levar à acomodação.


“O maior benefício da IA acontece quando ela estimula o estudante a pensar mais, e não quando pensa por ele. Se o aluno simplesmente aceita a primeira resposta apresentada pela ferramenta, ele perde uma das partes mais importantes da formação acadêmica, que é justamente a capacidade de questionar, analisar e construir conhecimento”.


A preocupação ganha ainda mais relevância na área da saúde. Embora sistemas de inteligência artificial possam contribuir para a análise de exames, identificação de padrões e apoio à tomada de decisão, a tecnologia não elimina a necessidade da avaliação profissional. A interpretação de um exame envolve contexto clínico, histórico do paciente e outros elementos que não podem ser reduzidos a uma única resposta automatizada. Nesse sentido, Falbo defende que a tecnologia deve funcionar como uma aliada do profissional, e não como sua substituta.


“Na saúde, precisamos ter muito cuidado com a ideia de que a máquina pode substituir o olhar do profissional. A inteligência artificial pode apoiar a análise de exames e chamar a atenção para determinados achados, mas o olho humano continua sendo fundamental. O médico precisa olhar o exame, relacionar aquela imagem com a história clínica do paciente e tomar uma decisão responsável. A IA pode ajudar, mas a responsabilidade continua sendo humana”.

O alerta também se relaciona aos riscos de respostas incorretas ou imprecisas produzidas por sistemas de inteligência artificial. Como essas ferramentas podem apresentar informações equivocadas com aparência de certeza, a conferência das fontes e a análise crítica são indispensáveis no ambiente acadêmico.


Uma pesquisa realizada com estudantes de Medicina da própria FPS identificou que a maioria dos participantes reconhecia que a IA provocaria mudanças na Medicina e traria benefícios à prática médica. O estudo também apontou a necessidade de atualização da educação médica diante das transformações provocadas pela tecnologia.


O desafio, portanto, não é impedir a presença da inteligência artificial nas universidades, mas preparar estudantes e professores para utilizá-la de maneira consciente. A tecnologia pode acelerar tarefas, ampliar possibilidades de estudo e apoiar processos de ensino e pesquisa, mas não substitui a formação intelectual e humana necessária para a atuação profissional.


“Não devemos ter uma relação de medo com a inteligência artificial, mas também não podemos ter uma relação de dependência. O caminho é aprender a utilizá-la de forma crítica, ética e responsável. Na formação em saúde, isso é ainda mais importante, porque estamos preparando profissionais que vão lidar diretamente com a vida das pessoas”.

A tendência é que a IA esteja cada vez mais presente na educação superior. Para acompanhar essa transformação, instituições de ensino precisam investir não apenas no acesso às novas ferramentas, mas também na formação de pessoas capazes de compreender seus limites. Afinal, em uma época em que máquinas conseguem produzir respostas em poucos segundos, uma das competências mais importantes do estudante continua sendo saber fazer a pergunta certa — e ter conhecimento suficiente para avaliar se a resposta está correta.

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